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Degustação de Indulto - Presente de Natal!



Resgate


Rose estava a sete metros de altura com os pés sobre a forma abaloada da fachada de Regent Court e os braços esticados acima de sua cabeça.  Os dedos apoiados na borda da sacada a mantinham em equilíbrio exatamente abaixo dos aposentos de Lorde Henry Stuart.
O vento castigava-lhe o rosto, a calça de montaria tinha sido uma boa alternativa, já que lhe permitia amplos movimentos, assim bem como a blusa de seda branca que, eventualmente, retirara do guarda roupas de Sir Andrew Mackenzie na sua última temporada, quando o filho mais jovem do prodígio no ramo financeiro do Mississipi a tentara embaraçar, sugerindo que haviam ido muito além de um beijo.
Ela soprou com firmeza a mecha de cabelo contra sua testa, lembrando-se do dia em que adquiria a peça.


***

Era um baile, como outro qualquer, exceto pelo fato de que havia aceitado ir por insistência de sua tia, Lady Hamilton. Não gostava de ir a bailes, principalmente os do Novo Mundo. Louise, sua irmã mais nova, seria uma moça muito mais feliz em meio àquelas futilidades e sedas.
Todavia, Louise tinha apenas dez anos, e há quatro, Rose vinha evitando qualquer compromisso, com qualquer jovem. Por mais que seu pai, vez o outra, a alertasse de suas responsabilidades. Geralmente ocorrendo quando sua tia, Lady Hamilton, a viúva do Conde de Sussex, os visitava imbuída do mais alto desejo de ver as sobrinhas bem encaminhadas na vida. Era o que sempre dizia, desde que a irmã se fora, logo depois do nascimento de Louise. O Duque de Stanford jamais pensara em se casar de novo, para desespero de metade das mulheres da Inglaterra, e claro, de sua tia. Que via ruir qualquer chance do bom nome do cunhado e da irmã ficar ligado a alguma família de respeito.
Como ela mesma alertara Frederic, várias vezes, estava criando espíritos livres demais, principalmente quando Rose resolveu viajar pela Europa. Visto assim, não seria tão ruim, porém, ela ganhara o mundo sem nenhuma preceptora ou dama de companhia. Felizmente, o título do pai, e sua condição de braço direito da rainha, mantiveram as aventuras de Rose longe da maledicência das línguas felinas da sociedade inglesa.
Quando retornou de sua primeira viagem, encontrou a tia empenhada em casá-la com qualquer cavalheiro de renome. O que não durou mais que duas temporadas e sua decisão de ir para América. Dessa vez, entretanto, não conseguiu se livrar da tia e elas partiram para Garden Cross, com os cumprimentos de sua majestade. Ninguém tinha o direito de pisar aquela propriedade sem o conhecimento expresso da rainha.
Não era seu melhor disfarce para agir, mas também não era o pior. Aquele baile, em especial, era uma ótima oportunidade de conhecer a sociedade, mas desde que vira Lorde Henry, estava inclinada a desistir de qualquer ato. Começara a buscar rotas de fugas em cada canto do salão, até se deparar com um corredor imenso e se atirar nele com uma rapidez imensa. Escorregou sorrateira pelo piso de madeira e começara a testar as maçanetas até que uma girou sob seus dedos e entrou numa biblioteca.
Estava respirando aliviada quando a porta se abriu e um jovem moreno entrou por ela com duas taças entre os dedos, e a fitando atentamente.
– Eu vim encontrar alguém... – sugeriu alegremente. – Porém, vejo que isso será um inconveniente, já que teve a mesma ideia.
– Não... – ela se apressou em contradizê-lo. – Não tive.
– Isso é bom – disse indo até ela e entregando-lhe uma taça. – Talvez possa me fazer companhia, já que está entediada do baile tanto quanto eu, e me ajude a me livrar de uma situação indesejável.
As sobrancelhas perfeitas de Rose empinaram enquanto decidia se bebia da taça.
– Você veio a um encontro ou está fugindo de alguém?
Ele bebeu da taça longamente e retirando o casaco, foi até a lareira.
– Um pouco de ambos... – Apoiou um doa braços na cornija. – Minha mãe inventa esses bailes e sou obrigado a servir de isca.
– Isca? – achou interessante a proposta da mãe ao jovem.
– Sou o filho mais novo de Lady Mackenzie – disse por fim. – Andrew. Não fomos apresentados, mas eu a conheço... Lady Alcott. – Bebeu mais um gole e Rose notou que caíra numa armadilha.
Procurando rota de fugas, delimitou:
– Não me surpreende...
– A mim, sim. – Ele sorriu. – É mais bonita do que dizem...
Ele estava flertando de novo? – Rose pensou.
– Obrigada, mas eu tenho que ir... – ela tentou alcançar a porta, mas ele foi mais rápido.
– Está fugindo de alguém, não é?
– Não! – negou veemente. Ele não tinha nada a ver com isso, era um intruso em seus pensamentos e ações.
– Pois bem, eu acho que está... – Voltou a sorrir. – Então, vou entretê-la mais um pouco e descobrir tudo que quero da senhorita.
– Como? – Era um rapaz impertinente, isso sim!
Obviamente o jovem não estava acostumado a moças como ela. Estavam na biblioteca da bela mansão dos Mackenzie, no melhor estilo vitoriano que poderia se pensar e exigir de uma família que ascendia firmemente ao topo da lista da boa sociedade americana, com Andrew sem seu casaco, com um ar descuidado e dizendo que queria conhecê-la melhor quando foram surpreendidos por um amigo de Andrew e a sua irmã.
Duvidava muito que aquela tivesse sido uma intervenção desafortunada de coincidências absurdas, como por exemplo, ela estar atrás de um lugar para fugir justamente de Lorde Henry e achar a biblioteca destrancada, e Sir Andrew entrar em seguida com dois cálices de xerez dizendo-lhe que marcara com outra jovem ali.
Andara muito pelas cortes da Europa, nos seus poucos 22 anos de vida, que não entendesse certos sortilégios que os homens atribuíam gratuitamente as suas farsas. Na sua profissão, seria até mesmo ridículo não sabê-las, visto que um deslize poderia significar muito.
Aquele jovem, entretanto, estava longe de prever sua astúcia. Com uma falta de ar prudente e antes que a jovem desse o alarme, o qual certamente havia concordado em fazer ou não estaria ali, desabou pesadamente no chão. Sentiu o corpo forte de Andrew erguê-la e a voz da moça chegava ao seu ouvido assustada, dizendo que deviam deitá-la no sofá ali perto.
A jovem ainda arriscou a ideia de lhe pegar um copo de água ou quem sabe um médico, mas para surpresa de Rose o jovem Mackenzie tinha algo mais na cabeça que apenas adulações e namoricos, e dispensou o amigo à tarefa... Mantendo a moça ali.
Num ronronar medido, Rose chamou o jovem pelo primeiro nome e ele prontamente chegou mais perto.  A moça estava agitada, andava de um lado para o outro, certamente com medo do plano dos três ter consequências sérias... E teria se dependesse de Rose, que analisou a blusa do jovem – mais  três botões e ela deixaria seu corpo com facilidade. As janelas da biblioteca estavam abertas, o que indicava que uma fuga pelos jardins seria perfeita.
Assim que o jovem se aproximou de seu rosto para atender-lhe o chamado, Rose segurou firmemente a gola da blusa, se ergueu do sofá e a puxou com a força necessária para extraí-la do lugar. Com um sorriso contra o rosto preocupado de Andrew, ela correu para os jardins e sumiu na noite.       
– O que foi isso? – A jovem, que estava de costas para eles, redarguiu. – Onde está sua Rose?
Sua Rose? – Escondida sob as sobras da mansão, ela ouvia a moça se dirigir a si mesma com uma intimidade que nunca trocara com o jovem Mackenzie. Quando se tornara propriedade de alguém? Nem mesmo seu pai ousaria tanto
Bufou, e com uma habilidade surpreendente, voltou ao salão de baile. Passou por sua tia, Lady Hamilton – deixando a camisa em bolada contra seu colo – e forçou caminho até a anfitriã, que a recebeu com um sorriso nos lábios justamente quando o jovem que achara ela e Andrews providencialmente na biblioteca, tentava uma abordagem.
– Lady Mackenzie – Sorriu estonteante, sabendo que as atenções se voltavam para ela. – Soube que tem uma biblioteca magnífica.
– Ora... – A senhora de cabelos escuros como os do filho abriu o leque, abandando-se veemente. – Não é nada se comparada com a de Garden Cross – sentenciou, referindo-se a biblioteca da família de Rose.
Como os seus castanhos brilhantes e muita maestria, enlaçou o braço ao de Lady Mackenzie, contrapondo:
– Deixe que eu mesma decida, pois não? 
Lady Mackenzie devolveu-lhe o sorriso, incerta, e encaminhou-se ao corredor que, pouco antes, Rose cruzara com Andrew ao seu encalço.  Estava ansiosa em retribuir a audácia do jovem, tanto quanto o ver nos maus lençóis que desejara para ambos.
Entabulou uma conversa sobre botânica com Lady Mackenzie, já que sabia ser um dos assuntos prediletos do casal, e com felicidade viu-a pousar a mão na maçaneta e girá-la. O leve clique da lingueta da fechadura se embolou a agitação do coração de Rose, mas foi um momento de triunfo que durou somente até seus olhos encontrarem o vazio do cômodo, sem nenhum indício de que havia sido usado.
Rose fechou o cenho enquanto Lady Mackenzie apresentava suas coleções de obra primas dos mais diversos assuntos, até claro, serem interrompidas por uma voz conhecida de ambas:
– Permitam-me? – Lady Mackenzie sorriu e Rose murchou. Esquecera-se completamente de Lorde Henry, que agora lhe dirigia um olhar deliciado enquanto recebia a mão enluvada de mulher mais velha entre os dedos.
Não que Lorde Henry fosse um homem feio ou de maus modos, muito pelo contrário. No alto de seus trinta anos, era um dos solteiros mais cobiçados da sociedade. Sua família possuía muito influência junto à rainha, tendo recebido o título de Visconde de Cranford de suas mãos; embora, claro, fosse filho único e tivesse direito a herdar o título de Barão do pai. Um dos homens mais influentes da câmara dos comuns inglesa.
Também não era desagradável aos olhos, já que estava sempre bem vestido, barbeado e era possuidor de atributos físicos natos, como ombros largos e coxas grossas, assim bem como cabelos louros bem cortados e olhos de um azul profundo. Qualquer moça em são consciência – Rose tinha que admitir a si mesma – se consideraria sortuda de tê-lo como flerte, ou atém mesmo noivo. Uma sugestão que ele já estivera ao ponto de por em andamento, se não fosse Rose ignorá-la como estava fazendo agora a sua inquietante atenção.
Os passos dele ecoaram no chão de madeira lustroso, em sua direção, quando a porta da biblioteca foi aberta e Andrew Mackenzie surgiu imaculado sob o batente e seus olhos escuros encontraram os de Rose num brilho difícil de decifrar.
– Lady Rose... – Lorde Henry capturara sua mão e ela não conseguia respirar sob o beijo no dorso que ele lhe cedera tão pomposo. – Espero que possa me conceder a próxima dança, já que não sabia que estava no baile. – Ele sorriu-lhe, Rose pensou em correr novamente pela porta do jardim. – Se fosse de meu conhecimento, sua presença, teria feito com que dançasse comigo todas.  
Rose empalideceu. Ele conseguia ser pior e mais descarado que o jovem Mackenzie que, ela não sabia como, agora estava ao seu lado e segurava firmemente em seu braço.
– Ora, meu caro... – Sorriu o jovem, que não deveria ter mais que uns vinte e sete anos. – Deveria mesmo ter chegado antes... – E voltou-se para Rose. – Lady Alcott cedeu-me uma a uma.
Numa reverência, ele capturou sua mão e colou-a aos lábios de uma forma gentil. Os castanhos analisavam cada reação de Rose, cada reação da mulher que quase o metera numa encrenca sem volta. Por que ele fazia isso? Outra tentativa inútil de conseguir algum compromisso?
Bem, ao menos aquela não seria tão inútil, porque estava inclinada a seguir a pequena encenação dele até ficar a salvo de Lorde Henry, e isso podia não ser uma questão rápida caso decidisse por outra saída.
Ela dispensou-lhes um sorriso que teve o poder de silenciar os dois cavalheiros por segundos e fazê-la perceber que o jovem Mackenzie era de uma beleza exótica. Seus cabelos escuros e curtos, um rosto levemente quadrado e olhos de um castanho expressivo, assim com a cor morena de sua pele podiam instigar a imaginação de qualquer jovem ao dissabor de ter o coração arrebatado por um amor à primeira vista... Mas não ela – Empertigou-se sob os lábios dele – Rose era prática, não tinha tempo para romantismo. Na realidade, achava romances uma perda de tempo. Sua mente lógica analisava a cena com curiosidade empírica: tinha esquecido completamente que o marido de Lady Mackenzie era espanhol, e assim sendo, explicava-se muito da exuberância do espécime masculino a sua frente.
Analisados os pontos práticos, estaria mais segura entre os dedos do espanhol, do que sob o olhar seco do inglês pernicioso. Segurou-se firme no braço de Andrew que a desviou de Henry, conduzindo-a para fora dali com habilidade.      
– Até mais madre... – o jovem sentenciou ao passar pela senhora, que admirava a cena em silêncio. Com o leque aberto e espalhando a brisa sobre seu rosto, levemente feliz por seu filho ter saído vitorioso do embate.


***

Com um suspiro deu adeus às lembranças dando ouvido aos passos de Lorde Henry que se afastaram para o interior do cômodo e a suave pressão da porta se fechando ao longe.
Bingo! – Mordeu o lábio inferior enquanto içava seu corpo à sacada e escorregava para dentro do quarto silenciosamente em meio às cortinas verdes escuras. Arriscara muito indo ali para ver seus esforços serem suplantados por uma falta de ocasião de o Lorde deixar seu aposento.
Andava com cautela, procurando inibir o som dos seus passos, passando de tapete para tapete, enquanto observava um pouco da personalidade do Visconde de Cranford. A julgar pelos móveis sólidos de imbuia, com poucos detalhes e sem muitos ornamentos, diria que Henry tinha parcas aspirações, porém deveria haver algo ali que revelasse quem ele realmente era... E havia.
Assim que Rose ergueu seus belos olhos azuis às paredes, percebeu que não havia uma sequer que não ostentasse um belo retrato do Visconde. Quer fosse ele cavalgado ou numa sala de música ao piano. Rose sorriu, ali estava exposta a natureza de um homem que se tinha em alta conta... Um homem que se considerava acima de qualquer suspeita.
Fixou a escrivaninha do outro lado do amplo aposento que destoava da severidade do restante da mobília – provavelmente o presente de alguém que não poderia ser dispensado, porém não estava à altura de ser uma peça de destaque em qualquer ambiente da casa. Exceto, talvez, o nicho que ocupava onde a luminosidade quase não lhe emprestava graça alguma, e menos ainda a deixava funcional ao que se propunha.
Certamente Lorde Henry a colocara ali por uma questão pessoal e a usava para tal fim também. Para documentos que considerava importantes a tal ponto que não deviam deixar suas vistas. A cor avermelhada da peça e os desenhos entalhados em suas laterais, com intricados arabescos, a deixavam ainda mais grotesca. Rose prestou um pouco mais de atenção à mobília, notando as duas gavetas com trancas. 
Seus olhos brilharam de excitação.  O Visconde não poderia mesmo confiar que a feiura do móvel mantivesse a determinação de Rose longe de seus segredos. Ela negou com a cabeça... Não mesmo! Puxou uma chave mestra de um dos bolsos da calça e meteu-a na fechadura. Na primeira gaveta, encontrou duas pastas. Uma com promissórias de alguns nomes conhecidos – dívidas de jogo ao que pareciam –, e outra com um esboço de testamento. Será que Lorde Henry pensava em partir desse mundo tão depressa? – indagou Rose mentalmente. – Não se eu puder impedir...
Sorriu de canto e fechou a gaveta com a mesma perícia que usou para abri-la. Na segunda gaveta encontrou uma pilha de cartas de uma jovem chamada Catherina, que não continham nada além de declarações de amor mal redigidas – algo que levou Rose a se perguntar se errara tanto em julgar o Visconde por seus flertes, já que tão empenhadamente guardava coisas sem sentido como aquelas.
Respirou fundo, tirando o maço de cartas da gaveta, e notou que o fundo da gaveta possuía uma folga na união com uma de suas laterais. Determinada a ver o que o fundo falso lhe daria, meteu a ponta da chave ali e puxou-o.  Outro maço de papéis surgiu diante dos seus olhos; contudo, aqueles continham um nome que muito lhe interessava. Era exatamente do que viera atrás.
Passou os olhos rápidos pelas linhas escritas e eles brilharam realizados. Conseguira!
O barulho de passos no corredor, entretanto, a fez por de lado o momento de triunfo e fechar a gaveta rapidamente, colocando os papéis dentro da blusa ampla e disparando para a sacada ao mesmo tempo em que a porta e abria e o Lorde entrava acompanhado de seu valete.
– Pegue para mim o casaco verde, Theodore – disse Lorde Henry e o valete aquiesceu. – Creio que Lady Catherina mereça meu empenho.
– Mais do que Lady Alcott? – Theodore sugeriu para desgosto de Rose, que ouvia tudo abaixo da sacada, esforçando-se em alcançar a sacada debaixo e descer pela trepadeira, como fizera para chegar ali.
– Catherina é apenas um aperitivo... – sentenciou Henry enquanto Rose se balançava, segura no desenho em forma de onda da fachada, e se lançava ao chão da sacada do primeiro andar ouvindo completar: – Rose é o prato principal, que pretendo degustar com máximo proveito.
A jovem fez uma careta de nojo e prosseguiu em sua fuga pela trepadeira. Não demorou a alcançar o coche de aluguel parado na esquina próxima e ordená-lo a partir na direção da estação de trem mais próxima. Enquanto o cocheiro apressava-se em seguir suas instruções, ela fechou as cortinas da carruagem e trocou de roupa, deixando que uma bela mulher, como seus cabelos caramelos ondulando sobre os ombros e um vestido de musselina azul delineasse sutilmente as linhas de seu corpo.  
Quando chegaram à estação, Rose saltou com a valise nas mãos e um sorriso para o cocheiro, que recebeu uma boa quantia por sua discrição. Estava feito... Com o queixo erguido, e segura de si mais do que nunca, Rose embarcou no trem para Baltimore.    

***

O trem partira da estação há pelo menos meia hora, chegaria antes do amanhecer em Baltimore, e uma nova carruagem a estaria esperando para levá-la às redondezas de Garden Cross, no Condado de Garret.
Ela respirava profundamente na cabine privativa, sem conseguir adormecer, quando a porta foi aberta abruptamente por um homem de cabelos castanhos, impecavelmente vestido, porém com a barba por fazer ou que estaria deixando crescer, pois era falha em alguns pontos no seu lado esquerdo. E embora os traços do jovem fossem atraentes e houvesse certa sofisticação nos seus movimentos – como a leve curvatura que fez em sua direção e maneira como segurava seu bastão, cuja ponta era de prata e ostentava um símbolo que toda a perspicácia de Rose não a deixasse ver –, a dama se ergueu num único movimento preparada para tudo. Era ágil o suficiente para em poucos segundos sacar o punhal preso em sua panturrilha por tiras de couro.
O homem, entretanto, que retirara o chapéu e deixara seus cabelos caírem sobre os ombros, pareceu notar a rigidez dos atos da jovem e voltou-se rapidamente à porta, não querendo causar mais desconforto e solicitando baixo:
– Desculpe-me, parece que errei de cabine...
Rose estava a ponto de aceitar-lhe o pedido quando o solavanco do trem a calou e o fez cambalear para dentro da cabine e cair sobre ela, levando ambos ao encontro do assento. Sem pensar na boa educação que tivera, a jovem soltou um impropério que nem de longe atingiu seu objetivo, pois o homem encontrava-se desacordado sobre ela.  Com muito esforço conseguiu empurrá-lo para o lado e respirar, levando a mão ao colo.
Recobrada a cor do rosto, ela notou a cor vermelha dos seus dedos e se assustou, procurando por algum ferimento em si. Talvez tivesse batido com a cabeça em algo ou... Seus olhos encontraram a mancha escura e úmida no colete do intruso. Uma mancha que cobria quase toda extensão de sua costela direita.
Preocupada com a gravidade do ferimento, Rose o deitou no estofado e desabotoou o colete e a camisa, não ficou tão surpresa pelo corte em si – uma linha rubra de quase quinze centímetros –, mas sim pelas suposições de como ele a obtivera.
Voltou até a porta da cabine, certificando-se de que ninguém estava espreitando-os, pois quem quer que tenha feito aquilo poderia tê-lo visto entrar e Rose nem tinha uma arma consigo exceto um punhal preso à panturrilha.  Dependendo do atacante não era muito funcional. Porém, para sua tranquilidade, não havia nenhuma alma perambulando por ali.
Entrou, trancando a porta e puxou a valise para perto do estranho. Agora, olhando-o melhor, poderia dizer que ele não teria mais que trinta. A pele possuía uma coloração bronzeada que, aparentemente, não estava relacionada somente à exposição ao sol, já que os recantos mais reclusos de seu corpo também apresentavam a mesma coloração em menor intensidade. Ou seja, o sol teria apenas o efeito de realçá-la.  Era largo nos ombros, com músculos rígidos e bem delineados, e Rose se pegou pensando em que ele trabalharia, como cavalheiro que era, para ter uma aparência tão diferenciada dos outros que conhecia.
Abriu o kit de primeiros socorros, que sempre trazia consigo, e tirou algodão, agulha, linha e alguns vidrinhos lá de dentro. Molhou o algodão em um deles e limpou o corte, notando que a pele dele estava quente. Talvez mais em brasa do que seu rosto por sentir sua textura lisa e enxuta. Afastou esse pensamento e continuou seu trabalho antes que a febre o arrebatasse.
Assim que acabou a sutura, molhou um pano com água fresca e depositou-o sobre a testa dele. Por segundos, teve a sensação que o conhecia, admirando-o tão de perto, mas abandonou a ideia, já que todos os jovens que conhecera eram irremediavelmente um bando de engomadinhos.  Jamais se exporiam ao sol para qualquer tipo de trabalho.
Cobriu-o com uma manta e arrumou uma cama improvisada no chão. Esperava que a sutura que fizera, espantasse a febre, mas se houvesse necessidade de acudi-lo, ele não precisaria se locomover, forçando o corte. O que poderia ser ainda pior.
Recostou-se na valise, uniu as mãos sobre o rosto e deixou que toda a agitação do dia desabasse sobre ela como um sono profundo.          


***

Rose acordou quando sentiu que o trem parara por completo, percebendo cada músculo de seu corpo reagir à noite mal dormida, dolorido. Praguejou mentalmente o infortúnio enquanto procurava focar o estofado onde o homem dormira. Apesar de seus olhos ainda estarem embaçados pelo sono e a falta de claridade – consequência das cortinas fechadas – percebeu a ausência dele, o que a pôs de pé num único movimento.
Abriu a porta da cabine num rompante, procurando-o de um lado ao outro, percorrendo o vagão todo. Somente quando interpelou um dos condutores, é que se deu por vencida. Ninguém tinha visto nenhum homem com a aparência descrita por ela.  Soltou a respiração longamente enquanto sua mente procurava por algum detalhe que lhe dissesse algo sobre seu repentino aparecimento.
Só nesse momento lembrou-se dos papéis do Visconde e correu de volta à cabine. Pragueja ter sido tão idiota e se preocupado com o que pudesse suceder a um desconhecido; agora, entretanto, se o que pensava fosse verdade, pagaria pela sua imprudência. Não precisou chegar mais perto, depois de se espremer entra várias pessoas pelo caminho de volta, para notar o que lhe saltava aos olhos: fora roubada!
Entrou na cabine com o ódio corroendo suas veias. A valise estava caída no chão e seu conteúdo estava esparramado sobre o estofado com o desleixo de que só os principiantes eram dotados. Um sorriso de canto crispou seus lábios, se era apenas um gatuno, seria fácil achá-lo. Voltou ao corredor, sem dar alarme sobre o roubo e tomando o cuidado de fechar a porta. Desceria na estação e daria uma boa olhada, ele não devia ter ido muito longe.
Atravessou o corredor novamente, mas foi impedida de prosseguir em seu intento pelo solavanco que indicava a partida do trem. Irritada, ela ainda correu a distância que faltava até a porta do vagão, mas tudo que pode contemplar foi o rosto dele, em pé na plataforma, com os castanhos fixos nos seus azuis. Numa mesura, ela pode ler em seus lábios um obrigado.
Insultada de todas as formas, inclusive em sua esperteza – uma qualidade que muito presava – Rose o desafiou com olhar. Não deixaria isso barato, iria atrás dele e daqueles papéis... Ou não se chamaria mais Rose Anne Alcott!


E aí meninas e meninos, como me saí?
Quero a opinião de todos, ok??

Aproveito para deixar a todos meus parceiros, amigos e familiares o meu voto de um 
lindo Natal e um 2013 maravilhoso!
É nós de novo!





Se quiserem baixar e imprimir, seria bom que fosse em papel foto como enviei no kit,
mas não sei da possibilidade de todos. No fundo,
é apenas um mimo para dizer o quanto amo vocês!

BEIJOKAS

4

4 comentários:

Clube dos Novos Autores - CNA disse...

Oi flore!
Adorei, como sempre, a rainha do épico em ação, e não tem pra ninguém.
Continue nesta vertente, pois é esta que tem dado certo, você está indo direitinho.
Muito minuciosa a narração, com aspecto de realidade.
Beijos e te amo, você sabe, mas não sabe o quanto.
Adriana.

Roxane Norris disse...

Ah, Dri!!! Vc sempre me apoiando!
Obrigada amiga!
Eu agradeço muito por te ter ao meu lado! Te amo <3

Deise disse...

E ai??

Poxa Rô, que maldade!
Agora estou com vontade de quero mais!!!
Adorei a narração, os detalhes! Continue assim!
Parabéns!


Beijos
Deise

Lia Christo disse...

Adorei Roxane, e agora ficarei por aqui curiosa e desejosa de ler mais... Você leva muito jeito com romances históricos,e você sabe que eles são os meus preferidos. Bjus
Lia Christo
www.docesletras.com.br

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