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Letras - Degustação de "O Segredo de Fairwood"





Sob a linda tela à óleo de Vladimir Volegov
deixo minhas letras para embalar o final de semana de todos vocês:


 Os Fairwood

Fernanda olhava pela janela de seu quarto, cuja vista cobria os bem cuidados jardins da propriedade recém-adquirida no testamento de seu tio-avô o último Marquês de Winchester. Sua viagem havia sido tranquila, um voo com apenas uma escala até Londres, onde encontrara o advogado da família e dera início aquela loucura. A mansão dos Fairwood localizava-se no distrito de Winchester em Hampshire, um condado a sudeste da Inglaterra. Infelizmente, conforme avançavam em direção ao seu destino, as palavras do procurador de Lorde Fairwood pouco tinham efeito sob a moça.
Era inevitável que uma jovem nos seus vinte anos não estivesse interessada em propriedades e títulos, isso meramente a reportava aos filmes de época que sua mãe consumia com avidez inigualável nos dias agradavelmente frios dentro do apartamento em que moravam na zona norte do Rio de Janeiro.  Não suportava lembrar disso, nem em como tudo acontecera dolorosamente até aquele momento quando pegara um avião, cruzara o atlântico e fora parar numa cidade, que nem em seus mais loucos sonhos, pensara pisar.
Havia tantos lugares interessantes para conhecer como a Grécia, a Itália... França, Mas tinha que ser logo a Inglaterra? – perguntou-se inúmeras vezes enquanto aguardava o desembarque e via a fina chuva característica do país manchar as janelas do aeroporto de cinza e frio.
Os ingleses eram distantes e mesmo que o rapaz que a recebera, Charles Hamilton, fosse um jovem de aparência simpática e visível traços interessantes, e nada tivesse de parecido com o senhor de idade avançada que elaborara quando lera na carta Hamilton e Associados, desde 1891. Qualquer um pensaria num idoso, talvez até mesmo esquecido pelos anjos da hora de regressar para casa – suspirou – Não um rapaz saudável e de porte austero. O terno lhe caía muito bem – pensou – Talvez a Inglaterra não fosse tão insossa.
Algo que os minutos seguintes fizeram questão de apontar seu erro, já que nem mesmo seus sorrisos ocasionais o tiravam da postura séria e extrema polidez. Seu espírito devia ter cem anos, isso sim! Por que a tratar com tanta distinção?
Ela não era uma nobre, exceto talvez pelo fato de ostentar um nome extravagante, que até aquele momento sempre fora motivo de eventuais gracejos por parte de seus amigos mais íntimos: Fernanda Victoria Fairwood.
Tecnicamente seu pai achara exagerado colocar nela o sobrenome da mãe, Silva.  Embora em sua opinião sincera, Fernanda fosse um nome que não merecesse os dois complementos que carregava. Pensar num Silva em meio aquela extravagância era ainda pior, era achar que seus pais não tinham juízo algum... Mesmo que eles realmente não tivessem.
Afinal, uma excursão à Amazônia, com todos os perigos que a selva continha, não poderia ser considerada uma ideia normal. Odiava a maldita biodiversidade, o engajamento político deles e, principalmente, o fato deles terem morrido em meio ao projeto que desenvolviam naquela região como biólogos experientes.
Tudo que recebera em troca de suas mortes foi um apartamento, uma carta do governo e, agora, aquela herança que Deus sabe lá aonde a conduziria. Não era uma moça de aceitar doutrinas, principalmente por ter sido criada pela tia hippie e entender os conceitos primários do Woodstock, que em nada lhe pareciam atrativos. Felizmente deixara de tentar convencer a tia sobre seu ponto de vista e aceitara o fardo de ouvi-la como pagamento do carinho que ela tanto lhe dedicava sem reservas.
O interessante, é que tudo pelo qual tinha sérias restrições, se mostrava naquele momento as coisas das quais sentia mais saudades. Daria tudo para ouvi-la dissertar sobre Janis Joplin... Ou então receber um telefonema dos pais às quatro da manhã quando estavam saindo para a incursão à floresta. Iriam estudar o comportamento de certos animais que só eram vistos àquela hora. Tinha certeza que se o celular tocasse agora, deixaria a sonolência de lado e os ouviria com atenção. A maior atenção do mundo. Lágrimas escaparam de seus olhos e Charles anunciou solene ao seu lado:
– Chegamos Lady Fairwood. – Estendeu-lhe a mão para ajudá-la a sair do carro, uma Mercedes preta e grande.
– Obrigada, Charles – devolveu num inglês arranhado com um sotaque carregado de brasilidade e decidida a quebrar aquela frieza de tratamento. Não havia sentido para mantê-la. – Por favor, me chame somente de Fernanda.
– Impossível milady. – Fez-lhe uma mesura quando ela se colocou ao seu lado, admirando os extensos jardins que se antecipavam à mansão. Uma belíssima construção ao melhor estilo vitoriano, cujas linhas das fachadas delineavam, harmônicas, os dois andares que compunham sua extensão. – Não há como chamá-la somente por seu primeiro nome, e muito provavelmente pouco ele será ouvido em sua nova vida aqui.             
– Mr. Hamilton – ela se pegou momentaneamente envolvida pela polidez dele e corrigiu-se: – Charles, não penso passar mais do que uma temporada – cortou-o levemente. – Não faço a mínima ideia de como administrar tudo isso, além do que, para meus padrões de referência, essa casa poderia comportar várias famílias juntas.
O advogado manteve seus olhos fixos nela, procurando por palavras que delimitassem exatamente o que todos esperavam dela, mas tudo que conseguiu abordar naquele instante foram algumas implicações:
– Lady Fairwood, não tenha tanta pressa em partir – pigarreou levemente. – Deve conhecer um pouco mais de sua herança e todo futuro que ela pode lhe representar.
– Esse futuro não me parece tão promissor, Charles – riscou uma vez mais seu primeiro nome e o pobre rapaz teve dificuldade de respirar, afrouxando a gravata.
– Vamos entrar em sua nova casa – sugeriu após uma breve sudorese nas mãos.
Ele passou à frente dela, seguindo para os poucos degraus que davam acesso à porta principal, que foi aberta por dois jovens impecavelmente vestidos e que, como Mr. Hamilton, inclinaram-se para ela.       
– Seja bem vinda, milady – disseram em uníssono quando seus olhos já alcançavam a fileira de rostos postados a sua direita em sequência.
– Lady Fairwood... – os verdes caíram sobre Hamilton em advertência. – Lady Victória... – Os olhos dela rolaram nas órbitas e desistiu de intervir. – Esses são todos os empregados que possui sob suas ordens.
Os verdes se abriram surpresos ao correrem rostos de homens e mulheres, e sentenciou séria:
– Preciso mesmo de todos eles?
– Certamente a propriedade de Fairwood requer muitos cuidados, milady.
Fernanda parou em frente a eles e disse em bom tom sob um sorriso carismático:
– Estou feliz por conhecer todos e espero que sintam o mesmo... Terão que perdoar algumas faltas minhas, porque sinceramente não estou familiarizada com nada disso, mas creio que cada um poderá me ajudar com o que sabe. – Esfregou uma mão na outra nervosa. – Bem... Acho que concordam, não é?    
Surpresos, os empregados se entreolharam e Fernanda sussurrou para Charles:
– Disse algo errado? – sem, entretanto, distanciar o canto dos verdes, deles.
Charles coçou o queixo e respondeu-a:
– Não vou dizer que estão acostumados a esse tipo de intimidade com os patrões.
– Intimidade? – A sobrancelha da jovem arqueou.
– Certamente, milady, não acredita que sejam eles a ensinar maneiras para marqueses e duques... Ou qualquer outro título nobiliárquico que lhe venha á mente. – Voltou a caminhar com Fernanda ao encalço, deixando para trás os criados em cochichos. – Nobres geralmente assumem seus títulos prontos, se entende o que quero dizer. – Ele estacou à beira da escadaria de mármore, fazendo a moça colidir com suas costas, já que ainda sorria discretamente para os seus empregados. Gostaria de estar a quilômetros de distância, no Brasil, onde ser ela mesma, era menos complicado do que ali com o nariz enfiado no terno de Charles. – Milady... – voltou-se para ela prontamente, vendo-a coçar ligeiramente o nariz aquilino. – Creio que ainda demore um pouco para se familiarizar a tudo, inclusive aos nossos costumes... – O rosto dele ficou ligeiramente avermelhado e seus lábios dispararam: – Peço que considere a possibilidade de me ter como tutor, seria uma honra prestar esse último favor ao Marquês, e... – ele olhava para as pontas dos sapatos e nem percebeu que a moça passara por ele e subia os degraus apressadamente.
– Possibilidade considerada, Charles... – disse já  no topo da escada. – Aqui temos só quartos? – indagou curiosa.
– Precisamente – afirmou, correndo ao seu encontro. –  Ao todo são vinte e três.
– Uau! – ela disse, levando a mão ao coração como se o susto fosse ainda maior ao ver a extensão do corredor pelo qual seguiam. 
Os verdes correram ávidos pelas dezenas de quadros pendurados nas paredes que delimitavam um caminho repleto de portas e revestimento de tecido adamascado. A maioria dos rostos ostentavam cabelos cor de fogo e olhos de um verde intenso, como os dela.
Seus passos diminuíram e sua atenção estava presa às  fisionomias  particularmente parecidas, como mínimos detalhes que as distinguiam entre si, muitas vezes cabendo essa diferença às roupas que mudavam conforme a época do retrato. Por um lado, estava encantada por haver rostos tão familiares ao seu; por outro, seu cérebro gritava como tal hegemonia poderia ter sido obtida.
– Seus ancestrais – Charles sentenciou algo evidente a qualquer um, bastava um mínimo de inteligência, mas Fernanda sorriu-lhe. Não queria espantá-lo, muito pelo contrário, queria Charles por perto.
– É estranho conhecê-los dessa forma – sentenciou calma, admirando cada uma das pinturas. Levando os dedos à tela e sentindo-lhe a textura sob eles. –  Parecem tão distantes...
– São todos Fairwood que honraram o título que agora é seu – dizendo isso, o jovem passou à frente dela e seguiu pelo corredor em passos rápidos até quase seu final. Fernanda se apressou em segui-lo, mas demorou um pouco a chegar ao seu lado e, quando o fez, encontrou uma pintura de gêmeos idênticos, só que diferentemente dos outros todos Fairwood, ambos eram louros.
Houve uma pausa longa da respiração de Fernanda cujos verdes estavam presos aos jovens, achando-os extremamente belos.
– Esses são os gêmeos Fairwood – apressou-se Charles em revelar. – Lorde Thomas Fairwood – indicou-lhe o rapaz em trajes de montaria impecáveis. – O primeiro Marquês de Winchester – a pompa diminuiu um ponto em sua voz e ele emendou: – E seu irmão, Ethan Fairwood, minutos mais novo que o Marquês.
Nesse momento, Fernanda apreciou as feições de Ethan. Não havia nele a mesma altivez que no jovem Thomas. Seus olhos azuis vibravam em felicidade e malicia. E ela podia jurar que ele era um pouco mais forte que o irmão, pois quem quer que tenha sido o artista da obra fizera questão de salientar seus músculos sob o tecido branco, quase arrancando um suspiro alto dos lábios da jovem.
– Pensei que todos seriam ruivos – Fernanda exclamou de repente, disfarçando sua súbita falta de reação, quando Charles ameaçava puni-la com alguma observação imprópria.
– De fato, todos os demais Fairwood herdaram a cor dos cabelos da Marquesa de Winchester, Lady Evilyn Fairwood – explicou-lhe polidamente.  – Entretanto, ouso observar que apesar da leve tonalidade rubra de seus cabelos, eles também exibem uma cor distinta dos Fairwood.
– Oh, sim. Meu pai era ruivo, mas minha mãe tinha cabelos castanhos escuros. Era descendente de índios... Acho que puxei algo dela. Os lábios cheios e os cabelos chocolates – a informação escapuliu dos lábios da jovem sem que ela efetivamente pensasse contê-la. Ela sorriu e o jovem corou fortemente, como se aquela observação lhe causasse certo desconforto. Fernanda se viu obrigada a livrá-los do constrangimento: – Conte-me mais, Charles, já que não possuo o conhecimento devido de meus ancestrais... Como Thomas Fairwood obteve seu título?
– Lorde Fairwood obteve seu título através de méritos próprios em batalha.  E, sua alteza, a Rainha Vitória, deu-lhe o título em reconhecimento a seus feitos – disse num tom altivo, ao qual Fernanda não estava acostumava. Esteve ao ponto de sorrir com todo aprumo do rapaz ao dizer isso, mas conteve-se.
– Lorde Ethan não obteve a mesma honraria? – inquiriu-o curiosa.
Charles a fitou indiferente e prosseguiu num tom menos entusiasta:
– Ethan Fairwood nunca provou ser merecedor de tal distinção por parte de sua alteza.
Fernanda arqueou as sobrancelhas, intrigada, e calmamente voltou-se à pintura.
– Eles parecem que se davam bem...
Charles se viu obrigado a analisar a pintura antes de ceder-lhe uma resposta condizente.  
– Eram muito unidos, isso é fato... – pigarreou um pouco, analisando como prosseguir. – Embora fosse claro que Ethan decidiu pelas armas após Lorde Thomas voltar com o título da Criméia.
– Isso é realmente terrível! – Fernanda mordeu o lábio inferior em incredulidade. O homem não lhe parecia ter uma nota de inveja no olhar, muito pelo contrário, diria que ele estava muito à vontade ao lado do irmão. Até mesmo feliz de estar ali, o que deixou suas palavras seguintes sem um pilar de sustentação: – Então, devo crer que Ethan era um jovem mesquinho e invejoso...
– Oh, não... – interveio Charles. – Ele muitas vezes partiu em socorro do irmão. Ethan era um jovem de temperamento difícil, com ideais estranhos... Muitas vezes não agia como um cavalheiro.
– Acho que consigo entendê-lo – ponderou Fernanda, fitando Charles de canto de olho.
– Ele não saberia agir como um Marquês – afirmou o rapaz com convicção.
Fernanda, entretanto, ainda admirava os olhos doces de Ethan que, para ela, contrastavam com os sérios de seu ancestral.
– Creio ter sido um alívio quando ele não voltou de sua última incursão à Criméia...
– Como disse? – A jovem sobressaltou-se.
– Ethan foi dado como desaparecido depois de dois anos de buscas.
O coração dela disparou sem motivo aparente. Como isso podia ter acontecido? Ele ainda lhe sorria de canto na pintura... Não quis fitá-lo de novo.
– Ninguém pode achar que uma perda familiar é algo admissível – ela rasgou o ar baixo.
– Entendo seus sentimentos, milady – Charles ressaltou sentido com o olhar dela. – Todavia, naquela época, Ethan trazia problemas demais a sua família.
– Torno a dizer que ninguém é suficientemente mau que não possa ser amado...
– Ele não era mau – retrucou Charles. – A última coisa que se pode de dizer de Ethan era que havia maldade em seu coração. Seu problema estava atrelado justamente ao seu excesso de paixão pelas mulheres. Vivia metido em escândalos de todos os tipos, o que acabou se tornando um inconveniente desastroso ao irmão.
Fernanda se sentiu desconfortável, evitando olhar diretamente Charles, já que jamais estivera de fato no leito de um homem e, diante das palavras do advogado, várias cenas tórridas lhe invadiam a mente sem permissão. É verdade que havia dividido muitos amassos, beijos calorosos, mas cama – ela suspirou – jamais. E pensar naqueles olhos azuis percorrendo cada curva de seu corpo a fazia tremer.    
– Na verdade, pouco antes da partida de Ethan para a batalha, foi veiculado que os irmãos haviam tido um desentendimento, mas nada  ficou provado.
– Que tipo de desentendimento? – cortou-o a jovem.
– Não sei – respondeu Charles. – Não é o tipo de coisa que se guarde por séculos.
– Deve haver algo do tipo no computador do seu escritório – rebateu a moça. – Algo como arquivos de clientes.
– Algumas coisas estão realmente catalogadas lá, mas muito se perdeu no incêndio... Restando apenas relatos de pessoas próximas.
– Houve um incêndio?
– Milady...
– Fernanda – corrigiu-o – Apenas me conte o que sabe, Charles.
– Houve um incêndio pouco depois que Ethan foi dado como desaparecido – explicou o jovem. – Um incêndio que trouxe muito prejuízo ao nosso escritório, inclusive a perda de nosso fundador... – a voz dele embargou, naturalmente era um parente seu, mesmo que não o tivesse conhecido. – Se não fosse por Lorde Fairwood, teríamos falido.
– Então, a devoção de sua família está comprometida apenas com Lorde Fairwood – determinou a jovem em verdes atentos.
– Ora, milady, ele poderia ter tirado de nós a administração de suas terras, mas não o fez... – determinou Charles. – Pelo contrário, foi extremamente compreensivo.
Ela não admirou o feito, leu em seus olhos, e o jovem Hamilton completou:
– Qualquer outro nobre teria feito isso por receio...
– Tenho que dizer Charles, que a lógica inglesa me assusta... E muito. – Sorriu-lhe, mas ele se manteve em silêncio e Fernanda se viu obrigada a comentar: – Não sobrou nenhum relato daquela época? Nada sobre o jovem Ethan?
Charles a fitou intrigado.
– Não devia querer saber de Lorde Thomas?
– Foi Ethan quem sumiu... – rebateu a jovem. – Creio que se procurar por essa mansão, vou achar muito mais coisas de minha família que em seu escritório – maliciou, vendo-o se encolher ao seu lado. – Logo, conhecerei mais Lorde Fairwood que você.
Charles voltou a assumir um ar austero.
– Não há muito que saber sobre os Fairwood antes de Thomas receber o título de Marquês – ele chegara no ponto que  a jovem queria sem ela ter que forçá-lo a isso. – O pai dos gêmeos era primo de Eduardo Augusto, Duque de Kent. Tornou-se pároco, não era rico, nem pobre... Mas não estava tão ligado à realeza. Somente quando Thomas voltou, mostrando-se valoroso, foi que sua alteza concedeu-lhe o título, tornando o primo de segundo grau de seu cosnorte, um nobre de fato.
– Então os Fairwood possuíam algum pingo de sangue real – argumentou a jovem enfaticamente. – Ela não estava dando um título de Marquês a qualquer um...
– Não, de fato não estava, porém esse é um título militar. Não dependia de uma condição real ou de apadrinhamento, como poderia parecer hoje em dia.
– Embora fosse conveniente – disparou a jovem. – Diga-me, Charles, o que acha que aconteceria se fosse ao contrário?
– Perdão...? – o jovem ficou confuso. Embora sua pergunta aparentasse que ele não a havia entendido, Fernanda duvidava muito que esse fosse mesmo o caso.
– Estou lhe perguntando caso Ethan voltasse vitorioso da Criméia, seria dado a ele o título de Marquês?
Charles riu, embora ela não visse motivos para isso. Estava ficando cada vez mais intrigada com aquela divergência entre o caráter dos irmãos quando a pintura não demonstrava isso, e tinha certeza, que em algum momento, estudara que aquelas pinturas visavam retratar a realidade.
– Não consigo ver como isso aconteceria... – relutou Charles, e voltou a afirmar: – Por tudo que já ouvi de Ethan, ele jamais se prenderia às responsabilidades de um título.
– E, você, Charles? – Estreitou  verdes sobre ele. – Como chegou a ser advogado?
Ele sentiu-se desconfortável ao ser posto contra parede por ela.
– Bem, era o que todos esperavam de mim – disse afrouxando um pouco mais a gravata. – Sou filho único... Então, seria lógico seguir a carreira de meu pai.
– Quero saber se gosta do que faz – redarguiu Fernanda.
– Sim, fui criado desde menino em meio às leis e papéis. – Ele sorriu divertido. Não era uma questão só de herança, estava realmente em seu sangue. – Não sei se poderia fazer algo diferente.
– Entendo – ela assentiu e voltou-se ao jovem Ethan. – Ele não foi criado assim, tudo que se esperava em termos de descendência coube a Thomas... Talvez, por isso, ele sempre se sentisse mais à vontade na sociedade e propenso a não seguir regras.
Riu divertida ao pensar nisso.
– Talvez tenha razão, milady – ponderou Charles surpreso. – Eu realmente nunca tinha pensado por esse lado.
– Porque estão sempre atrás de regras que justifiquem seus atos – contrapôs a jovem em verdes brilhantes. – Rompê-las, às vezes, é divertido e necessário, Mr. Hamilton. – Havia um quê de ironia na voz dela e Charles corou. – Onde disse  mesmo que era meu quarto?
– Não disse – rebateu de súbito – Uma das criadas virá ajudá-la com  tudo.
Ele já ia voltando para a escada quando os dedos de Fernanda o impediram.
– Você já está aqui, Charles – sussurrou junto a ele, fazendo gotículas de suor se concentrar em sua testa. –  É só me mostrar a porta.
– Essa... – umedeceu os lábios, falseando notas – Atrás de você, o quarto da Marquesa.
Ele se envergonhou da intimidade da frase, mas Fernanda apenas posou os dedos ao redor da maçaneta, sem se importar de quem era o quarto, e destrancou-a.
– Obrigada, Charles... – ele hesitou as suas costas, pode sentir, e ela completou sem fitá-lo: - Nos vemos amanhã.
  Ele assentiu para a porta já fechada, e antes de descer a escadaria, lançou um olhar furtivo aos irmãos. Eram mesmo muito parecidos – pensou, para em seguida deixar a mansão em passos rápidos.


Esse livro é dedicado a minha sobrinha e filha, Fernanda Diniz. Espero que ela tenha bons momentos com ele assim como todos vocês, meus amores!


Digam-me, flores, principalmente Lia Christo, Marcia Abreu, Adriana Vargas e Mia Teixeira... Tô indo bem? 

Beijos


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2 comentários:

Sandra Alvarenga disse...

Gostaria muito de ver seu nome na lista da revista Veja, vou ficar aqui torcendo por vc

Roxane Norris disse...

Olá Sandra
Obrigada pela deferência, fico muito feliz que me considere tanto, mesmo não sabendo se mereço toda essa sua estima... Mas muito, muito obrigada pelo seu carinho sincero!
Beijokas

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