O berço de Catherina
Frightened by a dream, you're not the
only one
Running like the wind, thoughts can come undone
Dancing behind masks, just sort of pantomime
But images reveal whatever lonely hearts can hide
Luz do sol
que entrevem da janela, banha o quarto, inunda a cama... a cama onde ela
dormia. Seu sono solto, sono de mulher, em sonho de menina. Onde os cabelos
pretos espalhavam-se em fios de ébano sobre a fronha tão alva quanto sua pele.
Pele menina, em corpo de mulher... Onde estava Catherina?
No seu
belo e lindo palacete, em colunas douradas, esperando o príncipe? Não, estava
na cama comum de mogno, no quarto de um bairro do Rio de Janeiro... O castelo,
tão esperado por ela em seus sonhos, não era tão dourado... Nem as cortinas
rosas enfurnavam com a brisa fresca, muito comum naquelas paragens, como ela
sonhara.
Não havia
seu belo escritório, com sua prancheta, resquícios sólidos de sua profissão;
arquiteta. Nem isso, ela havia deixado ali. Eram apenas móveis, avermelhados
como seu olhar, que vagava pelo quarto à procura de abrigo. Abrigo das roupas,
objetos inanimados, pequenos resumos de sua vida, que como cristais
translúcidos, enfeitavam seu quarto... delicadamente. A um passo de se quebrar.
Lady, lady, lady, lady
Don’t walk this lonely avenue
Lady, lady, lady, lady
Let me touch that part of you
You want me too
Aprisionavam
sua alma cada vez mais... Em sonhos que não viriam, na música que há trinta
anos fazia sucesso, no corroído vinil da década de oitenta. Um presente que
passou à passado tão rápido, quanto a vida muda seus caminhos. Mas a alma de
Catherina estava ali... imutável. A mesma menina que sorria para o príncipe
encantado, do alto de sua janela, bem elaborada, em estilo art déco...
Era para ele bramir sua espada e dizer poemas... Entretanto, saíam fórmulas
matemáticas de seus lábios... Lábios perfeitos para Catherina, perfeitos como
seus sonhos.
Fôra ela
sozinha que o escolhera, o cavalo branco... há muito tempo, tornara-se malhado.
As pintas lascivas que deturpavam o sonho tão puro de Catherina. Um sonho que
ela não esperava chegar aquele ponto... Um ponto de reticências, como há muitos
nesse texto. Uma reticências exageradas de continuidades, não contínuas. Porque
no sonho de Catherina, seu príncipe era perfeito.
Usava
armadura, entrava pela torre mais alta do castelo, em móveis de mogno, com toda
a altura de um garanhão puro sangue... Mas aonde ele estava agora, na doçura do
dia a dia das crianças que choravam, cresciam... e se libertavam do sonho de
Catherina?
O que era
Catherina agora, que o príncipe se despira do dourado, as cortinas rosas não
tremeluziam sob a brisa... e não havia castelos... nem sonhos?
Lady, lady, lady, lady
I know it's in your heart to stay
Lady, lady, lady, lady
When will I ever hear you say
I love you
A realidade
sufocante de um dia quente de verão, onde a brisa no corre, a pele esquenta...
O maldito chapeado feito as seis e quinze da manhã simplesmente enverga pelo
calor do Rio de Janeiro. E a droga do salto alto de quinze centímetros é só
mais uma aporrinhação naquele dia que deveria ter começado perfeito, como seu
casamento há vinte e dois anos!
A chuva
intensa de março, enche de lama seus sapatos, e quando pisa em casa, ás seis da
tarde, depois de lutar por mais de três horas contra o banco, a vaga no supermercado
e o caixa... o príncipe vira e diz:
– Merda,
cadê o jantar?
Não era
apenas para ele sorrir e dizer meia dúzia de besteiras, e tentar organizar as
coisas de forma apropriada para um intelecto superior?
Então,
Catherina apenas assenti, passa por ele e se tranca no quarto.
Time like silent stares, with no apology
Move towards the stars, and be my only one
Reach into the light, and feel love's gravity
That pulls you to my side, where you should always be
Não ouve
mais os protestos descabidos de um príncipe que perdeu seu alazão em algum
ponto da história, em que ela, não sabe precisar como foi que isso
aconteceu... Ela se tranca da vida,
aparentemente depreciativa que há lá fora... Os anos passaram, a vida passou,
mas Catherina ainda está ali... viva. Mesmo que todos os outros digam que ela
não pode sonhar...
Que ela
não deva sonhar...
Que ela
não consegue mais sonhar...
Então, ela
agora vive para ela... E um dia, aquele príncipe, que a menina Catherina
sonhava, vai entrar pela torre e salvá-la da vida... Não mais dos sonhos de
menina. Porque, como nós mulheres, ela também quer ser amada pelo que é... Não
por ser bonita, inteligente... ou feminina. Ela quer aquilo que os filmes
insuflam à mente humana, o que seu corpo de mulher pede a sua alma... e é muito
mais do que apenas alguém que entra em sua vida como um príncipe... vira um
pai... e envelhece sem conhecer a mulher que um dia teve ao seu lado...
Por que,
você sabe, Catherina nos deixou, há linhas atrás...
Lady, lady, lady, lady
Don’t walk this lonely avenue
Lady, lady, lady, lady
Let me touch that part of you
You want me too
Minha homenagem a todas as mulheres,
principalmente a minha irmã Nathercia
EU TE AMO!